A coragem
É uma mulher cheia de medos. Medos patetas, medos pequenos, medos de somenos. Medo de magoar e de ser magoada, medo de confrontar e de ser confrontada. Medo de vozes levantadas, medo de abandonos, medo de perder o sonho, medo que o sonho nunca tenha existido.
Grande e delicada, de colorido claro, voz macia, uma sinfonia de símiles fáceis de brandura e pastel, toca tão ao de leve o mundo que este quase não a sente. Viveu sempre na corda bamba do desprazer do marido, em função de uma noção de bem comum que é apenas própria. Como tal, assumia todas as culpas e oferecia todas as desculpas.
Até ao dia. O dia em que viu o mimetismo nos actos da filha. Nesse dia, pegou na criança e cortou as amarras da sua insegurança. Num supetão de asa. A maior coragem é sempre a dos timoratos.
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